Veja essa matéria que selecionei vindo do blog do
Zeca Camargo, apresentador do fantástico. Pra quem quiser ver seus outros conteúdos só
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Talvez você estivesse esperando encontrar aqui hoje uma coleção de impressões do show a que, ontem, eu assisti bem de perto: Paul McCartney em São Paulo. Peço desculpas se causo decepção, mas vou falar de outro assunto – e por dois motivos. Primeiro, porque, como eu brinquei no final dopost anterior, este não é um blog só de música – e eu tenho consciência de que nas últimas quatro semanas eu só tenho falado praticamente disso (com exceção de umrápido comentário sobre “a novela do momento”, mas que eu também acabei levando tudo para o lado musical, por conta da nova montagem de “Hair”). Depois, porque uma experiência como essa – a de ver Paul McCartney ao vivo – é forte demais para ser digerida tão rapidamente assim, de um dia para o outro (e talvez seja até pessoal e intraduzível demais para eu querer aqui dividir com você, e eventualmente comparar com o registro de outros fãs que também estavam lá ontem… melhor deixar cada um ficar com a sua lembrança desse momento inesquecível – aliás, se quiser mandar suas impressões do show, fique à vontade, vou gostar de ler).
Ademais, eu li um livro recentemente que me deixou incomodado o suficiente para ter vontade de discuti-lo aqui com você. Ele acaba de sair nos Estados Unidos. Ainda não foi traduzido para o português, mas deve ganhar em breve – início do ano que vem, talvez? – uma edição brasileira, pois seu autor é respeitado por muitos, além de adorado por outros tantos (inclusive esse que vos escreve). Apesar do que vou escrever hoje, torço mesmo para que saia logo! Estou falando de “By nightfall”, o novo (e relativamente breve) romance de Michael Cunningham.
Se o nome do autor lhe é familiar, é porque você deve ter lido sua obra de maior sucesso – ou, no mínimo, tenha talvez visto a brilhante adaptação dela para o cinema: “As horas”, dirigido por Stephen Daltry, com um elenco que reúne “apenas” Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman. Porém, se você nunca ouviu falar de Cunningham, se essa pequena obra-prima contemporânea lhe escapou até hoje, faço agora uma breve descrição das razões para você “tirar o atraso” e correr atrás dela.
Apoiado numa estrutura bem original, ele faz no livro três retratos de mulheres muito particulares. A primeira é ninguém menos que Virginia Woolf – uma das escritoras mais respeitadas do século 20, que abre o livro a caminho de seu suicídio. Porém, seu momento maior em “As horas” tem a ver com a criação de uma de suas melhores histórias, “Mrs. Dalloway” – com a angústia de não saber como começar esse livro. Em outra época (as passagens com Woolf são dos anos 20), no final dos anos 40, outra mulher vive sufocada na sua vida doméstica: Laura tem um marido que a ignora e um filho que ela já não sabe como amar, numa sociedade reprimida que está a um passo de se transformar. E “fechando” o trio, Clarissa é uma nova-iorquina “descolada” e moderna do final dos anos 90: tem uma filha, está “casada” com outra mulher, e prepara uma festa para um amigo gay, que está com a saúde bem debilitada por causa da Aids.
Mesmo para o leitor (ou a leitora) que não tenha grande intimidade com a obra de Virginia Woolf – que permeia de maneira brilhantemente sutil as duas outras histórias também –, “As horas” é um deleite. Não apenas um livro irresistível desde o seu início, mas também um daqueles volumes que depois que você lê, faz com que você se sinta recompensado – na sua inteligência e sensibilidade.
Quando li “As horas” fiquei tão fã de Cunningham, que fui atrás de outras coisas que ele já havia escrito – e me emocionei novamente com seu livro anterior, “Uma casa no fim do mundo”. E foi com grande expectativa que li, logo que saiu em inglês, “Specimen days” – que aqui foi lançado como “Dias exemplares” (como todos os trabalhos já citados aqui, pela Companhia das Letras). Embora um pouco mais cifrado para o leitor (especialmente brasileiro) que não tem intimidade com a obra do poeta Walt Whitman, “Dias” traz a sofisticada prosa de Cunningham numa outra estrutura de três histórias – e é muito bom!
Post grande demais para caber em um tamanho normal de postagem. Mais no link!